O Like como Passaporte para Pertencer.
Ao refletir sobre os sistemas de recomendação das redes sociais e os dados que os alimentam, torna-se evidente que eles revelam muito mais sobre os traços humanos do que sobre a tecnologia em si. Afinal, são nossas escolhas, desejos e padrões de comportamento que moldam esses sistemas. O algoritmo não cria o gosto: ele o amplifica.
Escrevo sob a influência da releitura de A Metamorfose, de Franz Kafka — uma obra que permanece atual como crítica social. Entre suas múltiplas camadas de interpretação, detenho-me na forma como Gregor Samsa, ao perder sua aparência humana, deixa de cumprir a função simbólica que exercia dentro da família. Sob uma lógica utilitarista, ele deixa de representar valor e passa a ser percebido como um fardo, um corpo estranho que causa desconforto psicológico.
A estética, afinal, é simbólica. Utilizamos símbolos para expressar pertencimento. Pierre Bourdieu nos ajuda a compreender esse processo ao afirmar que o “gosto” não é uma escolha puramente subjetiva, mas um marcador social. A estética — aquilo que vestimos, consumimos ou a maneira como organizamos nossos espaços — opera como capital simbólico. Por meio dela, estabelecem-se distinções, barreiras de classe e sinais de pertencimento. O símbolo estético comunica, quase instantaneamente, uma posição na hierarquia social.
A “forma” funciona como uma embalagem que frequentemente é tomada como representação fiel do conteúdo. Ernst Cassirer, em Filosofia das Formas Simbólicas, explica que o ser humano, enquanto animal symbolicum, não acessa a realidade de forma direta, mas por meio de sistemas simbólicos como a linguagem, o mito e a arte. A estética, portanto, não se restringe à ideia de beleza: ela constitui uma linguagem que organiza nossa percepção do mundo e dos grupos aos quais pertencemos.
Jean Baudrillard aprofunda essa lógica ao afirmar que vivemos na era do “valor-signo”. O objeto — a forma — passa a ser consumido não por sua utilidade, mas pelo que simboliza. A embalagem torna-se um simulacro: uma representação que já não mantém vínculo direto com a realidade, mas aceita como verdade.
Guy Debord sintetiza esse processo ao afirmar que “tudo o que era vivido diretamente se tornou representação”. Na sociedade do espetáculo, a imagem converte-se na mercadoria final. Se a forma convence, o conteúdo torna-se secundário, pois o espetáculo se sustenta pela própria aparência.
Ao transpor essa lógica para as redes sociais, a pergunta se impõe: como fazer um conteúdo “pertencer” — ou, em termos práticos, engajar — nesses ambientes? A resposta é quase automática: pela estética.
Os algoritmos do Instagram ajustam-se continuamente aos padrões de comportamento do usuário, formando sistemas de recomendação que reforçam e retroalimentam tendências. Esse funcionamento se desdobra em diferentes espaços da plataforma, como Stories, Feed e a aba Explorar. A própria empresa detalha esse processo em seus canais institucionais, evidenciando que aquilo que se repete, performa bem e se encaixa tende visualmente a ser priorizado.
Faça a leitura aqui.
Para aprofundar essa discussão, vale mencionar o artigo
“Autoestima alimentada por ‘likes’: uma análise sobre a influência da indústria cultural na busca pela beleza e o protagonismo da imagem nas redes sociais”,
que oferece uma base empírica e teórica sobre como a imagem — a forma — passou a mediar as relações sociais e a própria percepção do “eu”.
Acesse o artigo aqui.
Nesse contexto, a estética torna-se símbolo de pertencimento. Há uma busca constante por padrões específicos de beleza, sobretudo entre os jovens, orientada pela lógica do capital simbólico e pela promessa de distinção social. O “like” emerge, então, como uma moeda: uma forma de capital simbólico digital capaz de inserir ou repelir o indivíduo, funcionando como o selo máximo de aceitação em uma elite virtual.
A noção de “forma” enquanto embalagem e o conceito de pseudoconcreticidade são centrais na crítica do artigo à chamada “vitrine do bem-estar virtual”. O uso de filtros, aplicativos de edição e manipulação corporal produz um fake model — uma realidade falsificada consumida como se fosse autêntica.
Nesse ambiente, as imagens passam a substituir os textos: a fotografia torna-se o próprio conteúdo a ser julgado. A embalagem é aceita como representação total do ser, apagando a complexidade da vida concreta que existe por trás da imagem.
A indústria cultural, nesse sentido, promove uma estilização da cultura e da vida. Comportamentos, corpos e narrativas seguem um esquematismo que não estimula a diversidade, mas a repetição. A diferença deixa de ser valor e passa a ser risco.
Quando o indivíduo orienta sua conduta exclusivamente pela aprovação externa — materializada no “like” — instala-se uma fissura entre o “eu real” e o “eu ideal”. A vida passa a ser performada segundo a estética do sucesso ditada pelo mercado, em detrimento de uma reflexão crítica ou ética autônoma.
Aqui, o like deixa de ser apenas um gesto de interação e assume a função de passaporte simbólico. Ele autoriza a entrada, legitima a presença e confirma o pertencimento. Quem não o recebe arrisca experimentar uma exclusão silenciosa, semelhante à de Gregor Samsa: ainda presente, mas já fora da lógica de valor.
No capitalismo simbólico digital, não basta existir — é preciso ser visto, reconhecido e validado. O “like” torna-se, assim, a medida contemporânea de valor social. Um capital volátil, instável e profundamente humano, que promete pertencimento, mas cobra, como preço, a constante adequação da forma.
Obsolescência humana?
Por que programar?
Não me recordo do ano. Já faz algum tempo. Eu era uma leitora inveterada. Não que eu não leia hoje em dia, mas, naquela época, ler parecia ser o significado e a tradução de quem eu era. Com o tempo, porém, isso foi ficando complicado: a rotina apressada do trabalho, a vida nas ruas, trens e ônibus… e os livros, bom, eles pesavam.
Foi então que olhei para aquele pequeno intruso na minha mão: o celular, que começava a se tornar onipresente na rotina. Ele tinha um sistema, programas… Na época, eu não entendia profundamente o que aquilo significava — apenas no nível mais operacional, algo que minha experiência com manutenção e diagnóstico de computadores me permitia compreender.
E, como uma viciada que percebe o poder de barganha ao olhar para os móveis da casa e imaginar quanto dinheiro eles renderiam para jogar no “tigrinho”, pensei: e se os livros pudessem ser os programas do celular?
Foi assim que fiz um script — sem sequer saber exatamente o que “script” significava. Ele convertia arquivos DOC ou PDF em uma extensão JAR executável/instalável no celular. Depois descobri que pessoas muito mais técnicas do que eu haviam criado soluções melhores, com menos problemas do que os que meu script apresentava, tornando o processo de conversão mais simples e eficiente.
Conto essa história para dizer que, no fim das contas, programação é exatamente isso: resolver um problema. Mesmo sem total consciência ou domínio do que eu estava fazendo, fiz — movida pela necessidade e pela vontade.
O pensamento criativo, totalmente não linear, me levou a experimentar uma possibilidade de solução que não estava em um tutorial passo a passo no YouTube, nem em uma ferramenta de busca com algoritmos extremamente inteligentes prontos para me oferecer atalhos ou respostas completas.
Não havia ChatGPT, muito menos outras IAs programando por mim.
É isso que me preocupa quando dou aula. Não sei se quem começa a programar hoje terá a mesma sensação que tive quando, na graduação, o professor disse que faríamos um jogo. Como uma detetive, eu começava a pensar em como mapear a interação do teclado, como expressar aquilo na linguagem de programação… Não havia respostas prontas. Havia o momento de olhar para a parede e imaginar.
Ou ainda a missão de implementar um algoritmo de cálculo numérico sem entender completamente, a princípio, do que se tratava. Depois de algum tempo folheando livros, conversando com colegas, pesquisando em fóruns da internet… tudo de uma forma muito mais lenta e contemplativa do que hoje.
E a pergunta que provoquei no subtítulo — por que programar? — poderia facilmente ser substituída por por que jogar xadrez? ou até por que escrever? Qualquer atividade intelectual humana caberia nessa discussão.
Seria, então, a obsolescência humana anunciada?
O boom mais recente da IA, quando empresas acreditaram que conseguiriam substituir times inteiros de design, desenvolvimento, redação etc., apenas evidenciou que ainda não é possível substituir o pensamento humano não linear. Existem, inclusive, limitações estruturais comprovadas matematicamente pela teoria da computação, que fundamenta os computadores modernos. Recomendo a leitura do livro Cérebro Relativístico.
Outro livro interessante — Range (Por que generalistas vencem especialistas) — relata casos em que equipes híbridas, formadas por humanos e máquinas, performaram muito melhor no xadrez do que equipes compostas apenas por “máquinas”.
O modo de programar está mudando, especialmente no contexto corporativo. Mas isso não deveria mudar a forma como se aprende — ao menos não nos fundamentos.
Tive um professor que dizia que programação é como um grande jogo de Lego: é preciso encaixar as peças certas nos lugares corretos. As IAs, até certo ponto, fazem isso muito bem. Mas em projetos de maior complexidade — seja por questões de segurança, seja pela necessidade de experiências de usuário mais ricas e dinâmicas — a intuição grita.
É o mesmo instinto que um médico precisa ter para reverter um quadro crítico em segundos; o que um atleta aciona diante de um obstáculo inesperado; ou a decisão rápida no trânsito para evitar um acidente. Nesses momentos, não há tempo para consultar uma IA. Nenhuma te salvará.
Ainda não respondi completamente o “porquê”, mas já demonstrei, na prática, os ganhos envolvidos. Um profissional que sabe programar — ou ao menos pensar como um programador — faz prompts muito mais eficazes, pois consegue transmitir um olhar multifatorial de forma profunda. É a união da expertise com a prática deliberada.
Os ganhos cognitivos da programação vão muito além da própria programação. Esse, para mim, é um fator central — até mais importante do que se tornar “insubstituível” na carreira. E isso vale para todas as profissões. Essas tecnologias estão mudando a forma como trabalhamos, e eu recomendaria aprender a programar até mesmo para um psicólogo.
Ao mesmo tempo em que temos essa capacidade de pensamento não linear, temos também a capacidade de adaptação — a chamada plasticidade cerebral. Isso pode ser tanto uma vantagem quanto um risco. Fiquei particularmente alarmada ao ouvir o relato de um estudante que não queria fazer uma avaliação porque não poderia consultar o ChatGPT.
Quando conto, nos cursos técnicos em que dei aula, que precisei implementar, em prova e sem consultar nada, uma lista encadeada em C escrita à mão, os alunos ficam abismados — e pedem para que eu nunca aplique uma atividade assim.
Talvez valha um próximo texto para falar mais sobre os elementos fundamentais da programação, esclarecer quem não é da área e refletir sobre como era programar, como estamos programando e como talvez programaremos no futuro — ainda que qualquer prognóstico tenha prazo de validade curto.
E a obsolescência? Imagino que ela só ocorrerá se deixarmos de ser humanos. Há muitos outros aspectos intrínsecos a isso — como o fato de estarmos vivendo na era da dopamina, na qual somos cada vez mais estimulados e cada vez menos presentes.